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10/08/2016

“Essa É a Nossa Música”, por Marcelo Yuka

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Não sei exatamente qual o seu gosto musical, mas se você ainda acha que

reggae é uma música toda igual, com uma guitarrinha que se repete do começo

ao fim, com algum maluco com o cabelo diferente gritando “oi oi oi”, você está

severamente enganado. Esse ritmo, tipicamente jamaicano, fez daquela pequena

ilha no Caribe um reflexo não só da cultura local, mas da diáspora africana pelo

mundo. O Brasil, com todas as suas matrizes negras, culturais não podia ficar de

fora. De uma maneira ou de outra, o reggae como estilo musical começou o seu

namoro com o Brasil há uns 40 anos (alguns dizem que o shot já era um tipo de

reggae ou que o reggae já era um tipo de shot).

Uma das primeiras citações sobre o reggae no Brasil seria da música "Nine out of

ten", do disco Transa, do Caetano Veloso. Mas há evidências de gravações

propriamente ditas antes do Caetano Veloso, dessa palavra reggae, no Maranhão,

e até mesmo o Movimento Roraimeira – movimento cultural, como o nome diz,

vindo de Roraima, nossa capital mais perto do Caribe. Eu não sei dizer. Só sei que

depois de tanto tempo e de tantas afinidades rítmicas e sociais, o reggae se

estabeleceu no Brasil, não só para um público fiel, mas também por artistas que

seguram o seu cajado como proposta principal. É nesse terreno que o Ponto de

Equilíbrio cresceu e se estabeleceu.

Me lembro da primeira vez que vi os meninos no palco do Circo Voador. Foi uma

grata surpresa ter essa banda de Vila Isabel, subúrbio carioca, tocando com

propriedade o ritmo jamaicano, com um público que lotava as dependências do

lugar, cantando quase todas as músicas com devoção – uma clara referência que

as pessoas que estavam ali não precisavam da rádio para construir tamanha

empatia. Era o talento da banda e o espaço que o reggae exigia no país e fazia

toda a conexão. Cinco discos depois, a turma de Helinho, Lucas, Marcio, Tiago,

Marcelo e Pedrada estão, com certeza, mais ainda estabelecidos não só no

cenário do reggae, mas no cenário pop brasileiro. Me salta aos olhos, agora,

nesse novo trabalho “Essa é a nossa música”, a coragem e a autonomia da banda

em passear por vários estilos diferentes, sem perder a originalidade, nem o

vínculo estreito com o reggae de raiz.

O disco começa com “Fio da Fé”, um reggae moderno com riff de guitarra

distorcido e uma métrica vocal flertando com os DJs e toasters jamaicanos.

Depois, damos uma guinada na canção “Nossa Música” com participação do

Gabriel o Pensador, uma melodia linda com tendência atual da mistura que o ritmo

adota derivado do encontro com hip hop. “Chances”, a terceira faixa, já se

desdobra num roots ensolarado que assume de vez a relação da banda com o

rastafarianismo. Em seguida, temos “Direitos Iguais”, que agrada e muito

aqueles que, assim como eu, são fãs do Reggae Dub. “Estar Com Você”, a faixa

seguinte, já cai com uma pegada mais romântica com participação de Ivete

Sangalo e é mais uma grande melodia do disco. Perto da metade do disco, tenho

que ressaltar a qualidade dos timbres que tem nele, principalmente a cozinha

"baixo e bateria" da banda.

A oitava faixa, “Vou Me Tacar”, já tem um enfoque mais urbano e eletrônico, o que

mostra a versatilidade e a capacidade do vocalista Helinho em passear por várias

métricas diferentes. O disco segue com “Fogo e Água”, talvez a faixa mais

bombástica. A faixa onze, “A Vida de Um Rastafaman”, conta com participação

de Alexandre Carlo, do Natiruts. As duas vozes combinam muito bem e seguem

com a pegada rasta e melódica.“Peleja” é outra canção que abre espaço para o

hip hop entrar, onde a participação do Oriente dá o tom sem perder a pegada que

os fãs da banda já estão acostumados. As duas últimas canções “Etiópia

Sagrada” e“Diamante Rubi” propõem, mais uma vez, pelo ponto de vista

rastafári, um sossego, uma certeza e uma fé que, independente da crença de

cada um, é um aconchego espiritual musicado em gratidão.

Minha intenção, quando comecei esse texto, não era falar de tantas canções, mas

colocar apenas os meus sentimentos, minha visão, em decorrência do disco, mas

confesso que fui capturado pela diversidade dentro do gênero reggae, que a

maturidade do Ponto de Equilíbrio impõe. Os garotos cresceram e se fortaleceram

não só na autenticidade, para defender o reggae, mas na coragem de passar com

tanta autonomia pelas mais diversas nuances de gênero. O Ponto agora é do

Equilíbrio que a música pop brasileira contemporânea de origem jamaicana tem

para se alicerçar, no coração desse país complexo e multifacetado, ainda se

definindo, numa democracia religiosa, racial e política. Depois de tanto tempo, fico

feliz por ser e perceber que o reggae, em sua essência seja como for, ainda

carrega os mesmos compromissos dos seus mentores, sem temer a época, os

conflitos e as possibilidades urgente dos dias de hoje. Valeu, Ponto. Obrigado pelo

compromisso.

Marcelo Yuka

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